Artigo


 As Famílias do Brasil sob o Manto de Nossa Senhora Aparecida

A Peregrinação Nacional em Favor da Família, no dia 24 de maio, em Aparecida (SP), momento de fé, oração, reflexão, testemunho e graça contou com a participação de 26 bispos, mais de cem padres e cerca de 150 mil pessoas. Estamos todos agradecidos, a Deus e a Nossa Senhora, pela graças derramadas sobre a família brasileira. Era contagiante o testemunho dos milhares de peregrinos vindos de todas as partes do Brasil. Para muitos foram horas e horas de viagem, longas estradas, mas nem o cansado tirou deles a força que os movia e os fortalecia a cada passo.

Registramos, em nome da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, nossos agradecimentos à CNBB pelo apoio, especialmente a participação fervorosa de Dom Geraldo Lyrio na presidência da Celebração Eucarística no dia 24; a Dom Damasceno de Assis, Arcebispo de Aparecida e aos Padres Redentoristas que, desde o início, acolheram, apoiaram e ofereceram toda a estrutura do Santuário para que tudo pudesse acontecer bem. Agradecimento extensivo aos que coordenaram, incentivaram e apoiaram a Peregrinação, entre estes, os senhores Arce/Bispos, sacerdotes, religiosos, diáconos, seminaristas, casais, famílias, jovens, Regional Sul 1, à Arquidiocese de Aparecida e, certamente, os Meios de Comunicação Social, especialmente as TVs católicas e a TV Cultura, pela mensagem levada às nossas famílias através de seus satélites; ao Antonio Cardoso, pelo seu amor à Igreja e sua mensagem de testemunho e canção em nosso momento de catequese; ao querido Padre Reginaldo Manzotti com a sua equipe que, gratuitamente, animou com seu carisma, sua espiritualidade, seu carisma de comunicação e da música, as milhares de pessoas que se aglomeraram frente ao auditório “Dom Aloísio Lorscheider”.

Agradecido por tudo que Deus realizou em nós, e través de nós, desejei ardentemente, fazer memória deste abençoado acontecimento, ressaltando, uma vez mais, que a escolha de Aparecida para a “Peregrinação nacional em Favor da Família”, deveu-se tanto pela cidade mariana, como pela importância da religiosidade no cenário brasileiro. É chamada de capital da fé, capital mariana, em referência à presença do Santuário da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, e aos mais de 8 milhões de peregrinos que anualmente visitam a localidade. Estar em Aparecida é como estar na casa da mãe. A gente se sente acolhido, amado, único e, ao mesmo tempo, membro de grande família. Quando se vai à casa da mãe, a gente volta para casa mais acalentado, mais sereno, animado para continuar a missão e com vontade de voltar logo. Então, o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida representa a casa comum da grande família brasileira. E como é bom ter uma casa! Uma família! Uma mãe!

Considerando o contexto atual, cremos que alguns dos grandes desafios da estrutura familiar na sociedade hoje dizem respeito à fidelidade conjugal, à ruptura do matrimônio pela separação ou divórcio, às uniões livres, à esterilização, ao abandono das crianças, às guerras civis, entre outros, que ameaçam o núcleo mais importante da sociedade. Estes desafios se agravam com outros fenômenos atuais: o trabalho dos cônjuges que significa independência econômica de ambos,  a incapacidade de cuidar adequadamente dos filhos e um crescente egoísmo da parte dos casais que preferem não “gastar” em ter filhos por entendê-los como um peso. Podemos também elencar entre os desafios a falta de um sensível interesse das autoridades civis para melhorar a qualidade de vida material e espiritual das famílias, especialmente no que diz respeito à educação e à transmissão de valores.

Entendemos, assim, que a Peregrinação foi uma forma de fazer com que os interesses da família e da vida marquem presença nas políticas públicas gestadas em nosso país. Possibilitou também visibilizar a primazia e o valor da família na vida do nosso povo; conscientizar os fiéis e a sociedade em relação aos Projetos de Lei em tramitação na Câmara e no Senado Federal que enfraquecem a família e ameaçam a vida humana e mobilizar parlamentares para que defendam a vida e a família junto aos poderes públicos constituídos. O Papa Bento XVI afirmou em Aparecida que a família é um “tesouro e patrimônio da humanidade”.

Concretamente, é importante frisar que as perspectivas e ações imediatas e possíveis que vêm sendo desenvolvidas pela Pastoral Familiar do Brasil são basicamente a estruturação mais consciente e com planejamento; o aumento das equipes e formação; a articulação dentro e fora da Igreja; a formação sistemática, contínua e eventual; a formação sistemática através do  Instituto Nacional de Pastoral Familiar (INAPAF); a formação de agentes de Pastoral Familiar, através de curso à distância com acompanhamento; cursos intensivos presenciais; estudos, produção e distribuição de subsídios e assessoria para criação e implantação de escolas regionais e diocesanas de Pastoral Familiar. Enfim, vemos também que é urgente e necessário recuperar o verdadeiro sentido de família, como Deus a pensou (cf. Gn 1,26-27). O homem não tem o direito de reinventar o que Deus criou. Buscar de volta o caminho de Deus. Os pais não devem apenas falar com os filhos, mas fazer com eles um caminho de encontro pessoal e familiar com Jesus Cristo. Como assinala o Documento de Aparecida, isto requer “uma pastoral familiar intensa e vigorosa”, para proclamar o evangelho da família, promover a cultura da vida e trabalhar para que os direitos das famílias sejam reconhecidos e respeitados.

Somos conscientes que atualmente a família vive num contexto de profundas mudanças muito rápidas e de alcance global. E um dos fatores determinantes desta acelerada transformação social e cultural é o enorme avanço científico e técnico, que por suas enormes possibilidades de manipulação da vida e das consciências, mediante uma ampla rede de comunicação, e quase sempre amparado pelo governo, torna-se frequentemente a causa do individualismo, do relativismo e da fragmentação da realidade. Mas, concretamente, o Documento de Aparecida refere-se ao ocultamento de Deus. Na cultura atual, procura-se eliminar toda e qualquer referência ao sagrado ou religioso. Porém, sem Deus a realidade não é completa e necessita de unidade. Isto traz uma percepção fragmentada da realidade e uma visão unilateral sobre ela, que gera assim o que parece ser a crise mais profunda do nosso tempo. Esta é a razão pela qual muitos estudiosos de nossa época sustentam que a realidade traz inseparavelmente uma crise do sentido, diz o Documento de Aparecida. Outro obstáculo a ser superado é o ataque permanente das grandes potências que pressionam ou condicionam pela via econômica os países da América Latina a um não compromisso com a vida humana, desde o momento da concepção até a morte natural. Estas potências têm investido fortemente na legalização do Aborto, no assassinato de crianças com anencefalia, na Eutanásia, na Fertilização in vitro, na esterilização em massa, nas máquinas de camisinhas nas escolas, na manipulação e na seleção de embriões onde para supostamente viver um, deve obrigatoriamente matar muitos, em nome da ciência e da pesquisa, procurando a perfeição genética do ser humano.

Certamente, a família deve ser a grande prioridade pastoral nas dioceses e paróquias! Sem uma família respeitada e estável não pode haver organismo social sadio, equilibrado e sereno . O Documento de Aparecida também nos interpela a ajudar a família por meio de uma “pastoral familiar intensa e vigorosa”. Desta forma, a pastoral familiar poderá contribuir para que a família seja reconhecida e vivida como lugar de realização humana, a mais intensa possível na experiência de paternidade, de maternidade e filiação. Tudo isso vai depender uma abertura muito grande do coração dos nossos bispos, de nós sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas, agentes de pastoral, movimentos, serviços e institutos familiares. Para isso é imprescindível estudar alguns documentos, sem os quais, não creio que ser possível a participação da comunidade. Entre estes documentos estão: Familiaris consortio; Carta às Famílias; Evangelium vitae e o Documento de Aparecida, mas também, trabalhar pela dignidade das pessoas; valorização do sacramento do Matrimônio, da família e da vida. Enfim, sem a família não haverá uma verdadeira comunidade eclesial.

O Documento de Aparecida muito sabiamente define a pastoral familiar como sendo “um dos eixos transversais de toda ação evangelizadora da igreja”. Recordo-me que, em junho 1990, estava no terceiro ano do curso de teologia, quando o Papa João Paulo II, em Roma, disse aos Bispos Brasileiros que “em cada Diocese, vasta ou pequena, rica ou pobre, dotada ou não de clero, o Bispo estará agindo com sabedoria pastoral, estará fazendo ‘investimento’ altamente compensador, estará construindo, a médio prazo, a sua Igreja particular, à medida que der o máximo apoio a uma Pastoral Familiar efetiva”.

Enfim, hoje a nossa ação evangelizadora exige um profundo ardor missionário para ajudar as famílias a não perderem de vista a sua missão primordial de ser a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade. A família participa decisivamente no desenvolvimento da sociedade. É o lugar privilegiado para forjar no coração do homem os valores perenes, sejam eles espirituais ou civis. Com esta peregrinação, a Igreja no Brasil conclama a todos para que prossigam no objetivo pastoral de  Evangelizar pela Família e para a Vida, continuando com o empenho sócio-evangelizador pela promoção da vida, do matrimônio e da família, lembrando sempre do importante e insubstituível papel subsidiário da família cidadã para o bem da sociedade.

Pedimos as bênçãos de Deus e a proteção de Nossa Senhora Aparecida para cada família e para todas as pessoas, individualmente, dedicam suas vidas em favor da família.

Pe. Luiz Antonio Bento
Assessor Nacional da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família